Mouraria: Conferência Na Associação Renovar a Mouraria

No início era uma encosta natural orientada a Norte, fora da cidade fortificada, desinteressante. Alis Ubbo – Em 1200 aC o império fenício estabelece um porto comercial no rio Tejo, longe da encosta Norte. Olissipo – Em 117 aC o império romano conquista Alis Ubbo e estende a cidade ao longo do Tejo. A encosta Norte torna-se um olival. Al Ushbuna – Em 711 dC Olissipo é absorvida pelo império árabe e torna-se mais densa. A encosta Norte permanece de fora das muralhas da cidade. Lisboa – Em 1147 dC Dom Afonso Henriques conquista Al Ushbuna e cria um gueto para muçulmanos na encosta Norte: a Mouraria. Os habitantes do gueto são forçados a participar na demolição da mesquita e na reconstrução da cidade. O gueto constitui uma fronteira que compele a cidade a crescer ao longo do Tejo. Em 1572 dC os guetos são extintos e a cidade expande-se para Norte integrando – mas sobretudo contornando – a Mouraria. No século XVI um terço da população de Lisboa é negra e escrava. Como mercadorias ou animais, os escravos são capturados em África e trazidos para a Mouraria para depois serem utilizados, transaccionados e transportados para todos os territórios do império português. A Mouraria – um território informal, denso e labiríntico habitado por cidadãos de 2ª classe, infiéis e escravos – torna-se instrumental para o sucesso da cidade formal. Fado (1910), José Malhoa – Maria Severa Onofriana, filha de uma prostituta e prostituta ela própria, cria um estilo de cantar urbano, apaixonado e trágico num bordel da Mouraria. Mouraria: um enclave de transgressão na cidade formal, onde o inesperado é desejado. Propaganda – A invenção de uma cultura nacional. Tabula Rasa – Em 1958 vastas áreas urbanas são arrasadas para criar espaços de representação política e controlo social. A urbanidade densa e labiríntica da Mouraria é fragmentada e interrompida. A União Indiana invade Goa, Damão e Diu – territórios portugueses na altura – em 1961. A invasão dura 36 horas e será lembrada como a derrota mais humilhante da carreira política de Salazar. Os luso-indianos fogem para o território português mais próximo – Moçambique – onde transformam a cultura local para sempre. 1974 – O fim da ditadura e a independência das antigas colónias levam milhões de pessoas a fugir para um país que muitos até então não conheciam: Portugal. A Mouraria absorve milhares de portugueses de origem europeia, africana e indiana. A entrada no Espaço Schengen e na Zona Euro atraem imigrantes bengalis, brasileiros, chineses, paquistaneses e outros, que encontram na Mouraria uma morada central, económica e receptiva. A implantação da Mouraria. Torre de Babel (1563), Pieter Brueghel o Velho – Com 6000 habitantes e 29 nacionalidades, a Mouraria é um caso de coexistência pacífica num meio urbano densamente construído. Largo de São Domingos. Largo de São Domingos – Espaço público como clube social. Praça do Martim Moniz. Praça do Martim Moniz – Empilhamento funcional. Densidade como substrato de tolerância. Armazém térreo convertido em templo Ravidass. Praça do Martim Moniz – Cabeleireiros de várias nacionalidades africanas. Centro Comercial da Mouraria – Hub cultural. Centro Comercial do Martim Moniz. Centro Comercial do Martim Moniz – Viagem sensorial. Supermercado chinês na Avenida Almirante Reis. Calçada de Santo André – Engomadoria chinesa e artesanato português contemporâneo. Turistas – Uma visão recente na Mouraria. Incentivos financeiros para atrair novos residentes para zonas históricas. Além da atmosfera colorida das ruas – Interiores precários. Testes gratuitos de VIH em português e mandarim – Na Mouraria, a toxicodependência é comum a todas as faixas etárias e nacionalidades. Imigração ilegal para prostituição forçada. Homens com 30 a 40 anos de idade, residentes nos subúrbios, desempregados, manifestam-se contra a imigração na Praça do Martim Moniz. Ai Mouraria – Programa de regeneração urbana e integração social. Renovar a Mouraria – Rentabilizando recursos mínimos ao máximo, esta associação promove a criação de uma comunidade multi-cultural e a melhoria das condições das habitações e do espaço público. Renovar a Mouraria – Aulas gratuitas de português. Alguns alunos estão a aprender a ler e a escrever pela primeira vez. Cozinha Popular da Mouraria. Orquestra Todos – Cada músico tem uma nacionalidade diferente. Festival Todos na Praça do Martim Moniz. Festival Todos na Praça do Intendente. Lisbon Story (1994) de Wim Wenders revela uma cidade esquecida, decadente e maravilhosa, percorrendo cada rua e cada edifício como se desenterrasse um tesouro. Capa da Time Out (18-24/07/2012) – A Mouraria como último pedaço de Lisboa por explorar. Tuk-Tuks na Mouraria – A cidade como parque de diversões. Fado para turistas. Airbnb – Em 3 anos a Mouraria passou de zero a centenas de alojamentos. Lisboa é reiteradamente considerada melhor destino para city-breaks. Sotheby’s na Mouraria – Golden visas e estímulos fiscais agressivos atraem muitos estrangeiros às áreas históricas de Lisboa. Gentrificação Não-Regulada – Homogeneização funcional e social, redução da densidade, convergência da propriedade privada em grandes fundos de investimento. Center For Urban Pedagogy – Ferramentas para facilitar a participação cívica no planeamento e na política urbana. Miyashita Park, Tóquio (2011), Atelier Bow-Wow – A cidade como sistema dinâmico multidimensional.

Mouraria: Conferência Na Associação Renovar a Mouraria – Descrição / texto

Conferência sobre a Mouraria – antigo gueto muçulmano de Lisboa – no arranque do projecto do 5º Ano do Mestrado em Arquitectura da Universidade de Sheffield Hallam.

Uma longa história de abandono tornou a Mouraria extraordinariamente tolerante a culturas estrangeiras e a transgressões sociais. A Mouraria – um microcosmos global dentro de Lisboa – ficou sob o radar de políticos, investidores e turistas em 2012. A revista Time Out dedicou uma edição à Mouraria no mesmo ano, retratando-o como o mais estimulante – e também o mais desconhecido – bairro de Lisboa.

As coisas estão a mudar a um ritmo crescente e agora a grande questão é se a gentrificação deve ser regulada e, se sim, como é que a gentrificação pode ser usada como um activo que permita manter a sua população incrivelmente diversa, abordar as suas fragilidades sociais e económicas e melhorar o ambiente construído.

Com estes desafios em mente, cada aluno escolhe um terreno e define um programa que será depois materializado num projecto. O Camarim vai acompanhar o trabalho dos alunos.

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